Quando o Atari Jaguar quase recebeu jogos da Sega

Após ser processada pela Atari, a Sega aceitou liberar algumas das suas franquias para o Jaguar — o que, como sabemos, nunca aconteceu


Gosto de imaginar que em alguma versão do multiverso a Atari conseguiu triunfar, sendo até hoje uma das gigantes da indústria de games e... pensando melhor, após tantos erros e tentativas fracassadas de renascimento, o provável mesmo é que nem em uma realidade paralela isso tenha acontecido e para exemplificar esse raciocínio, posso citar apenas duas palavras: Atari Jaguar.


Lançado nos Estados Unidos em 23 de novembro de 1993, aquele console foi anunciado cheio de pompa e circunstância, prometendo ser o primeiro sistema 64-bit e trazendo consigo um design arrojado. O objetivo da Atari era ambicioso: competir com outro promissor console que chegava ao mercado no mesmo ano, o 3DO e posicionar a empresa a frente do que a Sega e a Nintendo estivesse produzindo.


Porém, sem ter conseguido brigar mesmo com os veteranos Mega Drive e Super Nintendo, o Atari Jaguar nunca engrenou e quando o Saturn e um tal PlayStation finalmente chegaram às lojas, o seu fracasso foi confirmado. Ele até recebeu um periférico que lhe permitia rodar jogos em CDs, mas apenas pouco mais de 150 mil unidades do consoles foram vendidas e sua produçãofoi encerrada em 1996.


As baixas vendas já seriam suficientes para colocar aquele videogame como um dos maiores fiascos da indústria, mas está na sua biblioteca a prova definitiva disso. Ao todo, apenas 63 títulos foram produzidos para ele, sendo 13 em CD e entre os motivos para isso estava o fato de o aparelho usar dois processadores, o que dificultava o desenvolvimento, além das péssimas ferramentas de criação e até mesmos bugs no hardware. Assim, não espanta a falta de suporte por parte das empresas externas.


O que muitos não sabem é que por pouco o Atari Jaguar não foi abastecido com alguns jogos que faziam muito sucesso na época. Isso aconteceu cerca de um ano após o seu lançamento, justamente quando os novos videogames da Sony e da Sega estreavam no Japão. Aliás, seria justamente dos criadores do Sonic que viria esse improvável apoio.

O interessante é que essa “parceria” não teria surgido de maneira amigável, mas sim devido a uma briga na justiça. Tudo começou muitos anos antes, quando a empresa americana ainda brilhava nos fliperamas e fascinava o mundo com o Atari Video Computer System (também conhecido como Atari VCS, ou ainda, Atari 2600).

Inovando num mercado bastante inexplorado, foi naquela época em que eles produziram muitos dos elementos que se tornariam padrão nos jogos e na tentativa de se proteger (e eventualmente lucrar), Nolan Bushnell tratou de patentear algumas dessas criações. Pois entre os conceitos cujos direitos foram garantidos pelo cofundador da Atari estava “a rolagem horizontal na tela de vídeo.”

Saltemos então para 1993, quando já com o nome Atari Corporation e sob o comando do fundador da Commodore, Jack Tramiel, a empresa partiu em direção da Sega. O objetivo era processar a concorrente justamente por ela estar usando a patente sem lhes pagar o que achavam devido e entre os pedidos feito estava a imediata suspensão da produção e venda tanto do Mega Drive quanto do Game Gear.

Os controles do Jaguar. Repare na ordem das letras dos botões (Crédito: Reprodução/A man alone/Wikimedia Commons)

Se hoje tal medida pode parecer um tanto exagerada, na época a justiça entendeu de maneira parecida e recusou a solicitação. Porém, o processo serviu para assustar os executivos da Sega, que para evitar problemas futuros preferiram fechar um acordo com a Atari Corp. Nele ficou decidido que os japoneses comprariam US$ 40 milhões em ações da Atari, além de pagar outros US$ 50 milhões para utilizar algumas das patentes que pertenciam a reclamante.

No entanto, a parte mais interessante daquele tratado se daria em relação às franquias das duas empresas. Segundo ele, anualmente cada empresa poderia levar para seu console até cinco franquias desenvolvidas pela outra, com a troca valendo até 2001.

Mas enquanto o então presidente da Sega of America, David Rosen, aproveitou o acerto para se dizer satisfeito com a nova parceria, o da Atari preferiu crescer os olhos. Em entrevista concedida à revista Edge em março de 1995, ele afirmou que tentaria maximizar o valor de suas patentes e não descartou acionar outras companhias na justiça. Será que a Nintendo estava na mira?


Os escolhidos pela Atari


Alien Storm, um dos jogos que deveriam aparecer no Atari Jaguar (Crédito: Reprodução/Katakis | カタキス/MobyGames)

Restava saber então quais títulos poderiam ser lançados para o Atari Jaguar e para isso a Sega elaborou uma extensa lista. Nela constavam nomes como Alex Kidd, ESWAT, Golden Axe, Sonic the Hedgehog, Streets of Rage e Wonder Boy. Porém, o quinteto escolhido pelos executivos da Atari acabou sendo o Alien Storm, Phantasy Star II, OutRunners, Shinobi e Zaxxon 3D. Eles até deixaram o Gain Ground na lista de espera, para o caso do código-fonte do Zaxxon 3D não estar disponível.

Um detalhe importante é que, segundo o que havia sido combinado anteriormente, tais jogos deveriam chegar ao Atari Jaguar apenas como adaptações daquilo que havia aparecido no Master System, Game Gear ou Mega Drive. Ou seja, aqueles que possuíam o console nunca receberiam versões exclusivas, mas para quem não tinha acesso a muitos títulos, não acho que isso seria um grande problema.

De qualquer forma, o negócio nunca chegou a ser concretizado e o motivo principal para isso foi o acaso. Acontece que logo após o acordo ter sido firmado, Sam Tramiel sofreu um ataque cardíaco e o controle das Atari Corp. passou para as mãos do seu pai. Percebendo que o mercado estava mudando e que não conseguiria encarar os três principais concorrentes da época — Nintendo, Sega e Sony —, o experiente executivo preferiu abandonar a indústria.

Algum tempo depois, a Hasbro acabaria comprando as propriedades intelectuais da Atari Corporation e liberaria as patentes do Atari Jaguar como domínio público, transformando-o em uma plataforma aberta. Desde então, algumas pessoas têm se dedicado a criar jogos para ele, uma atitude louvável para um péssimo videogame que, provavelmente, nem as franquias da Sega teriam conseguido salvar.

Fonte: Time Extension


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